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O propósito (nupcial) da interpretação bíblica | Scott R. Swain

 Uma coisa é afirmar que a interpretação bíblica e a pregação deveriam ser cristocêntricas. Essa afirmação flui do ensinamento do próprio Jesus sobre relação entre a Escritura e ele (ex: João 5:39; Lucas 24:44-47). Outra coisa é dizer como a interpretação bíblica e a pregação deveriam ser cristocêntricas. "Exposição cristocêntrica" significa coisas diferentes para pessoas diferentes. Para muitos interpretes e expositores contemporâneos, significa que a interpretação bíblica deveria buscar proclamar "o evangelho", muitas vezes entendido em termos da obra expiatória de Cristo ou o dom da justificação por Cristo.

Efésios 5 sugere outro modo de pensar sobre o telos cristológico da interpretação e da proclamação bíblica. Nos versículos 25-27, Paulo resume a obra de Cristo de uma forma que inclui as dimensões já mencionadas da obra de Cristo enquanto também nos ajuda a apreciar a ordem teleológica delas entre outros aspectos da obra de Cristo: “Maridos, amai vossa mulher, como também Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela, para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra, para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito.”

Começando com a causa motriz da obra de Cristo (“Cristo amou a igreja”), Paulo traça o curso da obra de Cristo desde seu auto-sacrifício salvífico (“Cristo… a si mesmo se deu”) passando pelo seu ministério santificador da igreja através da Palavra e dos sacramentos (“para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra”), até o propósito último, o fim nupcial da obra de Cristo: “para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa.” Segundo Paulo, Cristo nos salva por meio da sua morte expiatória e nos santifica através do ministério da Palavra e sacramentos com vistas à união marital e à comunhão. Conhecer Cristo, o Noivo, é o propósito final de todas as suas atividades salvíficas e santificadoras. 

Não só as atividades salvíficas e santificadoras de Cristo servem esse propósito. Segundo Paulo, a própria Escritura (indiretamente!) direciona os seus leitores a esse propósito nupcial também. No versículo 31, Paulo cita Gênesis 2:24: “Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne”. Mesmo Gênesis 2:24 tendo aplicação imediata ao casamento cristão (que é o foco principal de Paulo em Efésios 5:22-33), Paulo insiste que a sua aplicação última é cristológica, eclesiológica e escatológica: “Grande é este mistério, mas eu me refiro a Cristo e à igreja” (Ef 5:32). Na instituição do casamento, Deus escreveu no próprio tecido da criação uma placa apontando ao propósito último do seu “mistério” da salvação ao qual tanto o Antigo quanto o Novo Testamento apontam (ver Ef 3:9). E esse propósito último é nupcial, “me refiro a Cristo e à igreja”.

Como a interpretação e a exposição bíblica mudaria se considerássemos a perspectiva de Efésios 5? Se considerássemos o propósito nupcial da obra salvífica e santificadora de Cristo e da própria Escritura? No mínimo, nosso ministração cristocêntrica da Palavra ficaria não só no que Cristo realizou por nós, não só nos benefícios e nas bençãos que Cristo nos dá. Ficaria também, e na verdade principalmente, em quem Cristo é, na Sua relação conosco enquanto nosso noivo, no nosso recebimento dele como Senhor e na nossa resposta a Ele em amor dentro do contexto da aliança do casamento.

Ao fazer isso, nossa interpretação e exposição bíblica ficariam mais próximas da convicção comum a muitos intérpretes patrísticos, medievais e protestantes ao longo de toda a história da igreja, a saber, que Cântico dos Cânticos revela o significado último da Escritura e o significado último da salvação: "O meu amado é meu, e eu sou dele" (Ct 2:16).


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Autor: Scott R. Swain

Original em inglês: https://www.scottrswain.com/2022/02/16/the-nuptial-end-of-biblical-interpretation/





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