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Uma Confissão de Amor a Deus | Confissões: Livro X, XXVII - XXIX


Confissão de Amor

XXVII, 38. Tarde Te amei, beleza tão antiga e tão nova, tarde Te amei. Mas eis: estavas dentro e eu estava fora. Lá fora eu Te procurava e me atirava, deforme, sobre as formosuras que fizeste. Tu estavas comigo, mas eu não estava contigo. Mantinham-me longe de Ti coisas que, se nāo estivessem em Ti, não seriam. Chamaste e clamaste e quebraste minha surdez; faiscaste, resplandeceste e expulsaste minha cegueira; exalaste e respirei e Te aspirei; saboreei e tenho fome e sede; tocaste-me, e ardo na Tua paz.

XXVIII, 39. Quando me juntar a Ti com todo o meu ser, nunca mais haverá para mim fadiga e dor, e viva será minha vida, toda plena de Ti. Mas agora Tu elevas aquele que preenches, e como não estou pleno de Ti sou um peso para mim mesmo. Minhas alegrias, dignas de serem choradas, lutam com minhas tristezas, dignas de serem celebradas, e não sei de que lado ficará a vitória. Lutam minhas mágoas más com meus prazeres bons, e não sei de que lado ficará a vitória. Ai de mim! Tem misericórdia de mim, Senhor! Ai de mim! Eis, nāo escondo minhas feridas: Tu és o médico, eu o doente; Tu és misericordioso, eu miserável. Não é uma provaçāo a vida humana sobre a terra? Quem quer moléstias e dificuldades? Tu mandas aguentá-las, não amá-las. Ninguém que aguente ama, ainda que ame aguentar. Mesmo que se alegre por aguentar, preferiria, porém, que não houvesse o que aguentar. Desejo a prosperidade nas adversidades, e temo as adversidades na prosperidade. Qual ponto médio há entre as duas, onde a vida humana não seja uma provação? Malditas sejam as prosperidades do século, uma e duas vezes: pelo medo das adversidades e pela alegria corrompida! Malditas sejam as adversidades do século, uma, duas e três vezes: pelo desejo da prosperidade, porque a própria adversidade é dura e porque mina a resistência! Não é uma provação a vida humana sobre a terra, sem nenhum descanso?

XXIX, 40. Mas toda a minha esperança está em Tua misericórdia, sobremaneira grande. Concede o que ordenas, e ordena o que queres. Prescreveste-nos a continencia. E, quando percebi, disse alguém, que ninguém pode ser continente, se Deus não lho der, isso mesmo também era sabedoria, saber de quem vinha esse dom. Pela continencia, de fato, somos recolhidos e reconduzidos à unidade, da qual nos dispersamos na multiplicidade. Com efeito, ama-Te menos quem ama além de Ti algo que nāo ama por Tua causa. Ó amor, que sempre ardes e nunca Te extinguirás, caridade, meu Deus, acende-me! Ordenas a continência, concede o que ordenas e ordena o que queres.

Agostinho. Confissões. 2. ed. [S. l.]: Penguin Companhia, 2017. ISBN 9788582850473.




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